O LADO SOMBRIO QUE A GUERRA ESCONDE
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| (crédito: foto reprodução "IA" para ilustração do texto) |
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 2h41 desta segunda-feira, 09 de março de 2026.
A guerra, como escreveu a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, “não tem rosto de mulher”. A frase, que dá título ao seu livro monumental publicado em 1985, é ao mesmo tempo uma constatação e uma denúncia.
Nas últimas semanas, tornamo-nos telespectadores atônitos de um espetáculo que nenhuma ficção ousaria roteirizar. Vídeos e mais vídeos, numa cascata ininterrupta de imagens da guerra contra o Irã, invadem nossas telas com a brutalidade de quem arranca uma porta sem bater.
Caixões enfileirados de meninas em Minab, colunas de fumaça sobre Teerã, rostos desfigurados pelo pó e pelo pranto. Assistimos, paralisados, a um desfile macabro em que já não sabemos distinguir o que é inteligência artificial e o que é a realidade crua e nua dos fatos. A fronteira entre o real e o simulado se dissolve, e nessa dissolução reside um horror suplementar: a possibilidade de que a própria dúvida nos sirva de anestesia, de que o ceticismo diante da imagem nos absolva de sentir o peso insuportável do que ela mostra.
Porque o que ela mostra, quando é verdade, são meninas mortas. E quando é mentira, são meninas mortas que alguém fabricou para que nos acostumemos com a ideia de meninas mortas.
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã inaugurou-se com um gesto que condensa toda a obscenidade do conflito contemporâneo: o bombardeio da escola primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã, que matou 168 crianças e feriu mais de noventa. Meninas. Meninas que estavam em aula, aprendendo a ler, a escrever, a sonhar com um futuro que lhes foi arrancado por um míssil de precisão. O New York Times, após analisar imagens de satélite e vídeos verificados, confirmou que a escola foi severamente danificada por um ataque que ocorreu simultaneamente às ofensivas americanas contra uma base naval da Guarda Revolucionária Islâmica nas proximidades. Estados Unidos e Israel, até o momento, não reconheceram a autoria. A Casa Branca diz que “investiga”. Israel afirma não ter encontrado “nenhuma ligação”. O cinismo ocidental, esse velho conhecido, veste seu terno mais bem cortado e comparece à coletiva de imprensa para dizer que lamenta, que investiga, que condena. Verbos que, na gramática radioativa do patriarcado, são sinônimos de silêncio.
Contudo, a guerra sempre é e sempre foi cruel com os que lutam nela, por razões quase sempre inexplicáveis, sobretudo diante da racionalidade moderna, que esconde seus reais motivos para guerrear sob camadas de retórica humanitária, de “operações cirúrgicas” e de “danos colaterais”. Não nos enganemos: a racionalidade moderna não domesticou a guerra; sofisticou-a. Deu-lhe planilhas, algoritmos, conferências de imprensa e relatórios de impacto. Mas por trás de cada eufemismo, há o mesmo sangue antigo, o mesmo grito primordial, a mesma carne dilacerada que acompanha a humanidade desde que o primeiro clã empunhou uma pedra contra o outro.
A guerra é antiga e se confunde com a própria história da humanidade. Heráclito de Éfeso, o filósofo do fluxo e do devir, já proclamava, cinco séculos antes de Cristo, que “de todos a guerra é o pai, de todos é rei; uns indica deuses, outros homens; de uns faz escravos, de outros, livres”. A guerra como princípio cosmológico, como força geradora e destruidora, como parteira de hierarquias e destinos. Dois milênios depois, Carl von Clausewitz, o general prussiano que ajudou a derrotar Napoleão em Waterloo, definiria a guerra como “a continuação da política por outros meios”, uma formulação que, em sua aparente frieza analítica, esconde uma verdade terrível: a de que a política, quando fracassa ou quando convém, recorre ao massacre como instrumento. Não à toa, Michel Foucault inverteu a frase: “a política é a continuação da guerra por outros meios”, vide Trump e Netanyahu, que as fundem de maneira aterradora.
Hugo Grócio, o jurista holandês do século XVII, tentou domesticá-la pelo direito, estabelecendo as bases do que viria a ser o direito internacional humanitário. Sun Tzu, na China antiga, elevou-a à condição de arte. Tucídides, na Grécia clássica, narrou-a como tragédia. Rosa Luxemburgo, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, denunciou-a como filha terrível do imperialismo capitalista, que precisa expandir-se sobre os corpos dos povos periféricos para alimentar sua acumulação insaciável.
A guerra teve e tem muitas definições. Mas o que ela sempre nos reserva, para além de qualquer conceituação filosófica ou jurídica, é um desfile de horrores que a palavra não dá conta de narrar. Há um limite da linguagem diante do sofrimento extremo, uma insuficiência radical do verbo frente à carne aberta, ao osso exposto, ao olhar vítreo de uma criança que não compreende por que o mundo explodiu. A memória do trauma jamais desaparece. Ela se inscreve nos corpos, nas paisagens, nas gerações seguintes. Os sobreviventes da bomba de Hiroshima (bomba hereditária), os hibakusha, carregaram até a morte as marcas da radiação e do estigma social. Os veteranos do Vietnã trouxeram para casa um inimigo invisível chamado estresse pós-traumático. As mulheres de Srebrenica ainda procuram os ossos de seus filhos nas valas comuns da Bósnia, trinta anos depois. A dor não prescreve. A guerra imprime no tempo uma ferida que supura indefinidamente.
Sim, a guerra pune os homens. Homens que, orgulhosos de suas posições, de suas fardas, de suas bandeiras, marcham para o caos e o abismo de uma morte banalizada, de vidas desperdiçadas em nome de causas que raramente lhes pertencem. Os jovens soldados de Verdun, em 1916, morreram aos milhares num lamaçal de trincheiras por alguns metros de terra que seriam perdidos na semana seguinte. Os conscritos de Napoleão, arrancados de suas aldeias pela levée en masse de 1793, marcharam através da Europa para morrer de frio nas estepes russas ou de disenteria nos acampamentos da Península Ibérica. A França napoleônica recrutou cerca de 2,5 milhões de homens; 900 mil não voltaram. Famílias inteiras perderam seus provedores, comunidades rurais foram despovoadas, a produção agrícola colapsou. Mas eles marchavam. Marchavam porque a máquina da guerra os engolia antes que pudessem compreendê-la, porque o Estado moderno transformou cada cidadão em soldado potencial e cada corpo em recurso mobilizável. “Todo francês é um soldado e deve-se à defesa da nação”, proclamava a Lei Jourdan de 1798, dissolvendo a fronteira entre o civil e o militar, entre a vida e a morte administrada. Macron que o diga, não?! Cantando a marselhesa, hino francês, diante de um submarino atômico.
Contudo, a guerra moderna, desde no mínimo Napoleão Bonaparte, pune com especial ferocidade mulheres, crianças, meninas. As guerras napoleônicas, como demonstrou o historiador David A. Bell, marcaram a emergência da “primeira guerra total” no sentido moderno: a mobilização de sociedades inteiras, a militarização da economia, a destruição sistemática de infraestruturas civis. Em Zaragoza, na Espanha, mais de 50 mil civis morreram durante dois cercos entre 1808 e 1809, muitos de fome e doenças. Na Rússia, em 1812, dezenas de milhares de civis pereceram de exposição e fome durante a política de terra arrasada que precedeu a retirada de Napoleão. Francisco de Goya, testemunha ocular dos horrores da ocupação francesa na Espanha, gravou entre 1810 e 1815 a série “Os Desastres da Guerra”, oitenta e duas estampas que constituem talvez o mais pungente registro visual da crueldade bélica antes da fotografia: corpos empilhados, mulheres violentadas, crianças mortas, a razão adormecida parindo monstros. Goya sabia o que nós, dois séculos depois, fingimos não saber: que a guerra não poupa ninguém, mas devora primeiro os mais vulneráveis.
A guerra, como escreveu a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, “não tem rosto de mulher”. A frase, que dá título ao seu livro monumental publicado em 1985, é ao mesmo tempo uma constatação e uma denúncia. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas suas histórias foram sistematicamente apagadas, silenciadas, relegadas às margens de uma narrativa heroica construída exclusivamente no masculino. Aleksiévitch entrevistou mais de quinhentas dessas mulheres e deixou que suas vozes ressoassem em toda a sua angústia e arrebatamento: memórias de frio, de fome, de violência sexual, de uma coragem que não cabia nos moldes da glória militar convencional. A guerra não tem rosto de mulher porque a História, escrita pelos vencedores e quase sempre pelos homens, recusou-se a olhar para esse rosto. Mas ele sempre esteve lá.
E esteve lá não apenas como vítima, mas como sustentáculo invisível da própria máquina bélica. Na modernidade capitalista, a guerra é sustentada pelo trabalho invisibilizado das mulheres, que além de reproduzir e criar os filhos, os filhos que serão enviados para morrer, sempre participaram dos conflitos de formas que a historiografia oficial demorou séculos para reconhecer. Nas fábricas de munição da Primeira Guerra Mundial, foram as mulheres britânicas, as munitionettes, que produziram as balas e os obuses que alimentaram as trincheiras. Nos hospitais de campanha, foram enfermeiras que costuraram os corpos dilacerados dos soldados. Nas retaguardas, foram mães, esposas e filhas que mantiveram funcionando as engrenagens de sociedades inteiras enquanto seus homens eram triturados no front.
E quando a guerra se tornou insuportável, foram as mulheres que se levantaram. Em 8 de março de 1917, pelo calendário ocidental, mulheres tecelãs do distrito de Vyborg, em Petrogrado, entraram em greve e saíram às ruas exigindo “Pão e Paz”. Mais de 90 mil trabalhadoras e trabalhadores aderiram ao movimento naquele dia, que se tornaria o estopim da primeira fase da Revolução Russa. Foram mulheres, exaustas da fome e da guerra, que derrubaram o czarismo. Foram mulheres que, com seus corpos famintos e suas vozes roucas, inauguraram uma das maiores transformações políticas do século XX. Não é coincidência que o Dia Internacional da Mulher tenha suas raízes nessa insurreição: a luta das mulheres e a luta contra a guerra são, desde sempre, faces da mesma moeda.
A guerra moderna, a guerra do capitalismo contra tudo e contra todos, é sobretudo uma guerra contra as mulheres, seus corpos, seus cuidados, seus afetos. Não é uma guerra apenas no sentido metafórico, embora a metáfora também seja verdadeira. É uma guerra literal, material, que se inscreve na carne das mulheres com a precisão de um bisturi ou a brutalidade de uma bomba. Os conflitos contemporâneos matam proporcionalmente mais civis do que nunca: segundo as Nações Unidas, as mortes de civis em conflitos armados aumentaram 72% em 2023 em relação ao ano anterior, com mais de 33 mil vítimas registradas. Em 2023, 11.649 crianças foram mortas ou mutiladas em decorrência de guerras, um aumento de 35% em relação ao ano anterior. Os corpos das mulheres são territórios de conquista: a violência sexual como arma de guerra foi documentada na Bósnia, no Congo, em Ruanda, no Iraque, na Síria, em Gaza.
Não é à toa que a coalizão Trump-Netanyahu representa uma síntese tão brutal de homens que odeiam mulheres, homens que mercantilizam suas vidas e seus corpos. Donald Trump, o homem cujo nome aparece nos arquivos Epstein, novos documentos divulgados em março de 2026 pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos que detalham depoimentos de uma mulher acusando-o de agressão sexual quando menor de idade nos anos 1980, é o mesmo homem que ordena bombardeios sobre escolas de meninas no Irã. Benjamin Netanyahu, o homem que presidiu o massacre de mais de 75 mil palestinos em Gaza em dezesseis meses, incluindo milhares de crianças, é o mesmo homem que instou Trump a atacar o Irã para satisfazer os interesses geopolíticos de Israel. Há uma coerência perversa nessa aliança: são homens para quem o corpo feminino, o corpo infantil, o corpo do outro, é matéria descartável, recurso a ser explorado ou obstáculo a ser eliminado.
A desfaçatez é dilacerante. Durante décadas, as potências ocidentais usaram as violações de direitos humanos contra as mulheres no Irã, o uso obrigatório do véu, as restrições à mobilidade, a brutalidade da polícia da moralidade, para justificar o isolamento internacional de Teerã. Em nome de uma suposta “libertação” da mulher iraniana, o primeiro alvo da ofensiva foi justamente uma escola de meninas. Como observou a pesquisadora Natália Ochôa: “Se um dos pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá-las?”. A pergunta é retórica, mas sua resposta é material: não se trata de salvar mulheres, trata-se de destruir nações. O “feminismo imperial”, esse álibi cínico que veste a bomba com o laço da emancipação, é talvez a mais sofisticada das armas ideológicas do nosso tempo.
As mulheres iranianas, diga-se, não precisam de salvadores estrangeiros. O movimento “Mulher, Vida e Liberdade”, nascido em 2022 após a morte de Mahsa Amini, espancada pela Patrulha de Orientação, demonstrou ao mundo que as iranianas lutam por seus direitos com uma coragem que envergonha os gabinetes de Washington e Tel Aviv. Narges Mohammadi, Nobel da Paz de 2023, presa no Irã por sua militância, é a prova viva de que a resistência feminina iraniana não pede intervenção militar: pede solidariedade, pede justiça, pede que o mundo pare de bombardear suas escolas.
Não sabemos se tudo isso nos levará de fato à Terceira Guerra Mundial, essa catástrofe que parece sempre muito cobiçada por um mundo vazio, adoecido, entorpecido pelo consumo e pela indiferença. Os sinais são insuportáveis: a “Operação Epic Fury” já se estende por mais de uma semana sem perspectiva de cessar-fogo; Trump exige a rendição incondicional do Irã; novas frentes se multiplicam no Oriente Médio; o secretário-geral da ONU alerta para uma “multiplicação de novas frentes” e o aumento das mortes de civis. O fantasma de 1914, quando uma cadeia de alianças e provocações transformou um assassinato em Sarajevo na carnificina de quatro anos que redesenhou o mapa do mundo, paira sobre nós com uma familiaridade perturbadora.
Mas, independentemente de para onde nos conduzam os próximos capítulos dessa tragédia, uma coisa já é certa: estamos diante da guerra mais cruel de toda a modernidade. Não porque as guerras anteriores tenham sido menos sangrentas em números absolutos, a Segunda Guerra Mundial matou entre 70 e 85 milhões de pessoas, mas porque esta guerra se trava sob o signo de uma transparência obscena que torna o horror simultaneamente visível e invisível. Vemos tudo e não vemos nada. As imagens nos chegam em tempo real, mas a capacidade de processá-las, de transformá-las em indignação, em ação, em recusa, parece ter sido neutralizada por décadas de saturação midiática. Walter Benjamin advertiu que a reprodutibilidade técnica da obra de arte destruiria sua “aura”, o que ele talvez não pudesse prever é que a reprodutibilidade técnica do horror destruiria nossa capacidade de nos horrorizar.
Esta é a guerra que mata meninas. Que mata mulheres. Que mata nossas mães, irmãs, companheiras, tias, amigas. Que mata a advogada que lutava pelos direitos humanos e a estudante que aprendia a ler. Que mata a enfermeira que cuidava dos feridos e a mãe que amamentava seu filho sob os escombros. Que mata a professora que ensinava e a menina que aprendia. Numa guerra assim, não há paz para ninguém. Não há paz para os que bombardeiam, porque carregarão para sempre o crime coletivo e cruel que nenhuma coletiva de imprensa poderá absolver. Não há paz para os que assistem, porque a indiferença é uma forma de cumplicidade. E não há paz para os que sobrevivem, porque a memória do trauma, como dissemos, jamais desaparece.
Svetlana Aleksiévitch encerrou um de seus livros com uma frase que ecoa como uma sentença: “A guerra não é sobre a vitória. A guerra é sobre a dor.” Pois que esta dor, a dor das meninas de Minab, a dor das mães de Gaza, a dor das mulheres de Petrogrado que marcharam por pão e paz há mais de um século, não nos deixe dormir. Que ela nos acorde. Que ela nos obrigue a olhar para o rosto que a guerra sempre tentou esconder: o rosto de mulher.
Porque enquanto houver uma menina morta sob os escombros de uma escola, enquanto houver uma mãe cavando com as mãos a terra que cobre seu filho, enquanto houver uma mulher cujo corpo é tratado como território de conquista, a guerra não terá terminado. E a paz, essa palavra tão gasta e tão necessária, continuará sendo apenas uma promessa não cumprida, um horizonte que se afasta a cada bomba que cai, a cada vida que se apaga, a cada silêncio que se instala onde deveria haver um grito de libertação.
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Com informações foto ICL Notícias.

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