EXÉRCITO BRASILEIRO: “OFICIAIS MULHERES RELATARAM COMPETÊCIA SOB SUSPEITA E NECESSIDADE DE CONFIRMAÇÃO MASCULINA EM ATIVIDADES”; CONFIRA

(crédito: foto reprodução Sociedade Militar)


Por: Alvaro Neves.

Postagem publicada às 22h20 desta sexta-feira, 10 de julho de 2026.

Mulheres oficiais relatam dificuldades de aceitação da autoridade por militares do Exército Brasileiro

A primeira seleção para mulheres na Escola Preparatória de Cadetes do Exército teve 40 vagas e uma concorrência de 179 candidatas por lugar. O número mostrou que não faltavam brasileiras dispostas a enfrentar cinco anos de formação militar para conquistar a estrela do oficialato.

Anos depois, uma pesquisa produzida dentro da própria Academia Militar das Agulhas Negras revelou o outro lado dessa conquista.

Entre cadetes e oficiais do Quadro de Material Bélico, bem como oficiais superiores do Quadro Complementar e de Saúde, a totalidade das pioneiras da AMAN relatou diferenças no tratamento destinado a líderes femininas e masculinos. Para 91,7% das militares do Material Bélico, comandar sendo mulher envolve obstáculos maiores.

As conclusões aparecem em duas monografias apresentadas por cadetes da AMAN em 2025. Uma reconstrói a entrada feminina no Exército e defende a ampliação das oportunidades. A outra investiga como as primeiras oficiais combatentes percebem a formação, a liderança e a reação do ambiente militar à presença de mulheres no comando.

A porta da AMAN foi aberta por lei

A entrada das mulheres na linha de ensino militar bélico não ocorreu por conta da boa vontade dos generais do Exército Brasileiro: a Lei nº 12.705, de 2012, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, determinou que o ingresso feminino deveria ser viabilizado em até cinco anos.

O prazo levou à abertura das primeiras 40 vagas na EsPCEx em 2017. As aprovadas seguiriam posteriormente para a AMAN, instituição responsável pela formação dos oficiais combatentes de carreira do Exército.

A mudança exigiu uma operação muito maior do que simplesmente alterar o edital. Segundo a monografia da cadete G. M. Barros, a AMAN precisou de uma ampla reforma e foram feitas mais de 70 obras, agrupadas em 15 conjuntos, além da criação de 15 cargos para atender às novas necessidades.

Foram adaptados alojamentos, parques de instrução, áreas de educação física, instalações de tiro e locais destinados aos serviços de escala. Também foram incorporadas médicas, psicólogas, orientadoras e militares encarregadas de acompanhar a nova realidade.

O objetivo declarado era formar homens e mulheres dentro do mesmo padrão militar, preservando os requisitos profissionais, físicos, morais e operacionais exigidos de um oficial da linha bélica.

A abertura, porém, ocorreu gradualmente. Enquanto os homens podiam escolher Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia, Comunicações, Intendência ou Material Bélico, as primeiras mulheres ficaram concentradas no Serviço de Intendência e no Quadro de Material Bélico.

A monografia registra uma ampliação posterior para a Arma de Comunicações, abrangendo áreas estratégicas como telecomunicações, comando e controle, guerra eletrônica, cibernética e sistemas empregados em operações.

Esse avanço possui significado operacional-militar. As oficiais deixaram de ocupar apenas quadros administrativos, técnicos ou de saúde e passaram a integrar formalmente a estrutura que prepara comandantes para atuar nos corpos de tropa.

Mas entrar na linha combatente não significa que todas as barreiras tenham desaparecido.

Integração é bem avaliada, mas tratamento ainda seria diferente do proporcionado aos homens

A cadete A. R. Oliveira aplicou questionários a cadetes e oficiais pioneiras do Quadro de Material Bélico, além de oficiais mais antigas do Quadro Complementar e de Saúde. O grupo específico do Material Bélico reuniu 24 mulheres, majoritariamente entre 20 e 25 anos, em formação ou nos primeiros postos da carreira.

Os resultados mostram uma aparente contradição. A inclusão no QMB foi classificada como boa ou muito boa por 83,4% das participantes daquele curso. Além disso, 95,8% enxergaram de forma positiva ou muito positiva o futuro da liderança feminina no Exército.

Ao mesmo tempo, 100% das jovens de Material Bélico afirmaram já ter percebido diferenças no tratamento dispensado a líderes mulheres e homens. Para 58,3%, isso ocorreria frequentemente; para 41,7%, ocasionalmente. No grupo de oficiais superiores da EsFCEx, contudo, esse índice varia: 12% relataram nunca ter enfrentado diferença de tratamento.

Quando questionadas sobre o peso dos obstáculos, 91,7% das militares do QMB consideraram que as dificuldades enfrentadas por mulheres em posições de liderança são maiores. Apenas 8,3% entenderam que os desafios seriam equivalentes aos experimentados pelos homens. No universo das oficiais superiores, o índice das que enxergam desafios maiores é de 80%.

O dado mais relevante não indica rejeição à carreira. Pelo contrário: revela mulheres otimistas com o Exército, mas conscientes de que a aceitação da presença feminina nem sempre significa reconhecimento imediato de sua autoridade.

Só 20,8% das cadetes e oficiais do QMB consideram a preparação plenamente adequada para desafios de gênero

A avaliação mais sensível envolve a formação recebida para enfrentar situações específicas da mulher no ambiente militar.

Apenas 20,8% das pesquisadas do grupo da AMAN disseram que a instituição as prepara adequadamente para esses desafios específicos. Outras 37,5% consideraram a preparação parcialmente eficaz, enquanto 41,7% responderam que não se sentiam adequadamente preparadas. Entre as oficiais da EsFCEx, a percepção de preparo adequado para o cenário feminino sobe para 24%, com 60% apontando preparo parcial.

Isso não significa que as entrevistadas rejeitem a formação militar da Academia. Quando a pergunta tratou da relação geral entre teoria e rotina profissional, 41,7% das integrantes do Material Bélico classificaram a preparação como adequada e 45,8% como parcialmente adequada.

A lacuna apontada está principalmente nas relações humanas e no exercício diário da autoridade. Entre as competências consideradas pouco desenvolvidas na formação da AMAN apareceram empatia, inteligência emocional, gestão de equipes, comunicação e adaptação.

Para 95,8% do grupo do QMB, a gestão de equipe está entre as habilidades mais importantes de uma líder. Todas classificaram empatia e comunicação como muito ou extremamente importantes.

A mensagem com foco em melhorar a habilidade de se relacionar com pares e subordinados não é de redução das exigências militares. O que aparece na pesquisa é a defesa de uma preparação que una decisão, resistência e conhecimento técnico à capacidade de comandar pessoas em um ambiente que ainda passa por transformação.

A disputa deixou de ser pelo ingresso e agora é pela aceitação da autoridade

As duas monografias convergem em um ponto: a fase em que se discutia apenas se a mulher poderia ingressar na carreira de militares combatentes está sendo superada. A discussão agora envolve quais funções serão abertas, como as oficiais serão preparadas e de que forma sua autoridade será recebida por superiores, pares e subordinados dentro das instituições militares do Exército Brasileiro.


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Com informações Revista Sociedade Miilitar. 

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