COPA DO MUNDO: JOGO ENTRE ARGENTINA E INGLATERRA REVIVE O “FANTASMA DA GUERRA DAS MALVINAS”; ENTENDA
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| (crédito:foto reprodução 'IA' para ilustração do texto) |
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 4h55 desta terça-feira, 14 de julho de
2026.
Arquipélogo no Atlântico Sul é alvo de disputas históricas
entre Argentina e Inglaterra e foi palco de combate sangrento entre os dois
países em 1982; desde então, rivalidade foi a campo e encarnou tensões
geopolíticas nas Copas do Mundo
Confronto entre Argentina e Inglaterra na Copa revive o
“fantasma das Malvinas” diante de cicatrizes e traumas da guerra; veja posição
atual dos dois governos sobre a disputa histórica
As seleções da Argentina e da Inglaterra vão se reencontrar
em um confronto de Copa do Mundo vinte e quatro anos após o último embate em um
mundial, desta vez valendo uma das duas vagas na grande final da Copa dos
Estados Unidos, Canadá e México, em um embate carregado de simbologia histórica
e esportiva, com questões que permanecem em aberto 40 anos após um dos momentos
mais tensos da era moderna na América do Sul.
A bola vai rolar no Estádio de Atlanta (Mercedes-Benz
Stadium), nos EUA, pela semifinal do torneio às 16h da quarta-feira, dia 15 de
julho, colocando novamente em campo uma das maiores rivalidades do futebol.
Mais do que um encontro entre duas campeãs mundiais e duas grandes potências do
futebol, o confronto entre os dois países no mundial representa, no campo
geopolítico, um histórico de rivalidades e tensões que vão muito além das
quatro linhas.
As Ilhas Malvinas (chamadas de Falkland Islands pelo Reino
Unido) continuam sendo um dos litígios territoriais mais sensíveis do Atlântico
Sul quatro décadas após os combates. Em 1982, britânicos e latinos travaram um
sangrento conflito pelo domínio do território. O embate que ficou conhecido
como Guerra das Malvinas começou quando a junta militar argentina, liderada
pelo general Leopoldo Galtieri, sob pressões políticas e econômicas do regime,
decidiu ocupar o território que era reivindicado pelo país desde o século XIX.
O embate é muito mais antigo do que a guerra travada com
recursos modernos no século XX. Depois de tomar posse das ilhas na década de
1820, a Argentina, já independente da Espanha, viu suas autoridades expulsas do
arquipélago pelos britânicos em 1833. Quase 150 anos depois, os argentinos
lançaram a Operação Rosário com o objetivo de retomar o controle do território.
Na madrugada de 2 de abril de 1982, tropas argentinas
desembarcaram nas Malvinas e rapidamente tomaram a capital, Port Stanley
(Puerto Argentino, para os argentinos). A pequena guarnição britânica que
representava os interesses dos europeus no território foi derrotada após breve
resistência, e o governador britânico foi rendido. No dia seguinte, forças
argentinas também ocuparam a ilha Geórgia do Sul.
A resposta da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher seria implacável e compatível com o poderio militar de uma das maiores potências da época. O Reino Unido organizou uma grande força-tarefa naval composta por porta-aviões, destroieres, fragatas, submarinos nucleares, navios de desembarque e dezenas de embarcações de apoio. Em poucas semanas, cerca de 28 mil militares estavam a caminho do Atlântico Sul, incluindo forças navais, fuzileiros e exército.
Guerra e baixas no mar
Um dos episódios mais sangrentos da guerra aconteceria no
embate naval. Em 2 de maio de 1982, o submarino nuclear britânico HMS Conqueror
afundou o cruzador argentino ARA General Belgrano com o uso de torpedos Mark 8.
O ataque matou 323 marinheiros argentinos, quase metade das baixas totais do
país no conflito, e levou praticamente toda a frota de superfície da Argentina
a permanecer nos portos pelo restante da guerra.
Apesar das pesadas baixas no Atlântico, as forças argentinas
responderam. Um caça Super Étendard lançou um míssil contra o destróier inglês
HMS Sheffield, que afundou dias depois. Foi a primeira vez que um navio de
guerra moderno foi destruído por um míssil antinavio em combate, chamando a
atenção das marinhas do mundo para essa nova ameaça.
A ofensiva aérea se tornaria um trunfo do governo de Leopoldo
Galtieri diante da grande quantidade de embarcações deslocadas pelos
britânicos, o que acabou se revelando uma vulnerabilidade das tropas de
Thatcher. Voando no limite da autonomia e enfrentando modernos sistemas de
defesa britânicos, os pilotos argentinos conseguiram afundar ou danificar
diversos navios, comprometendo parte da mobilidade e a capacidade de fogo das
tropas britânicas.
Campanha britânica e derrota argentina
Apesar dos esforços argentinos, os caças britânicos Sea
Harrier, operando a partir dos porta-aviões HMS Hermes e HMS Invincible,
conquistaram superioridade aérea graças ao domínio tecnológico. Os números
destacam que os aviadores britânicos abateram 20 aeronaves argentinas sem
sofrer nenhuma baixa. Após garantir o controle do mar e dos céus, as tropas de
Londres desembarcaram na Baía de San Carlos para iniciar a campanha terrestre e
retomar o controle do território das ilhas em 21 de maio de 1982.
As forças do Reino Unido, compostas principalmente por
fuzileiros navais e paraquedistas, conseguiram superar a maioria das posições
defensivas argentinas em várias batalhas travadas pelo território.
Em 14 de junho de 1982, cercadas e sem condições de continuar
resistindo, as tropas argentinas na capital Port Stanley se renderam. O
conflito chegava ao fim, legando à Argentina uma derrota histórica com a perda
de 649 militares. Do lado britânico, foram contabilizadas 255 baixas entre
soldados.
Muitos dos mortos demoraram décadas para serem identificados.
Em 2025, uma iniciativa liderada por ex-combatentes avançou no objetivo de
identificar a identidade de soldados antes descritos como “conhecidos apenas
por Deus”, no cemitério de Darwin, que reúne sepulturas de mortos no combate.
O que dizem os dois países hoje
Mais de quatro décadas depois da Guerra das Malvinas, o tema
parece estar longe de ter um desfecho, com posicionamentos de diferentes
governos que se sucederam e, recentemente, pressão de organismos internacionais
para que Argentina e Reino Unido encontrem uma solução pacífica para a disputa.
Eleito em 2023, o presidente da Argentina, Javier Milei,
reconhecido por suas posições nacionalistas e ultraliberais, tem uma posição
considerada por muitas vezes contraditória em relação à retomada do arquipélago
que hoje é território britânico.
Em várias ocasiões, o presidente argentino declarou ser
favorável a um movimento de reinvindicação do território das Malvinas — assim
como fizeram governos anteriores, como os de Cristina Kirchner e Maurício
Macri, de diferentes espectros ideológicos.
Por outro lado, Milei declarou repetidas vezes sua admiração
por Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro” que comandou o Reino Unido por 11 anos
entre 1979 a 1990 e enviou as tropas que massacraram jovens argentinos durante
o conflito de 1982.
Thatcher ficou conhecida em seus governos por reformas
neoliberais, privatizações e corte de gastos estatais — caminho parecido com as
escolhas do presidente argentino durante o seu mandato, o que ajuda a explicar
a proximidade ideológica entre Milei e a figura histórica britânica.
Recentemente, conforme noticiou a CNN, o governo de Milei
reiterou sua disposição de retomar as negociações bilaterais com o Reino Unido
a respeito da disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas.
“A República Argentina expressa mais uma vez sua disposição
de retomar as negociações bilaterais com o Reino Unido que permitam encontrar
uma solução pacífica e definitiva para a disputa de soberania e pôr fim à
situação colonial peculiar em que se encontram“, declarou o Ministro das
Relações Exteriores argentino, Pablo Quirno, em uma publicação nas redes
sociais em abril.
A Organização dos Estados Americanos (OEA) é uma das
incentivadoras da retomada de diálogos pacíficos entre os dois países acerca da
soberania das Malvinas.
Domínio britânico é “inegociável”
Já do lado britânico, o posicionamento tem sido duro em
relação ao tema. O Reino Unido considera a soberania das Ilhas Malvinas
inegociável e defende o direito à autodeterminação da população local. Os
britânicos rejeitam qualquer exigência de transferência de controle para a
Argentina.
Após as declarações do ministro argentino em abril sugerindo
a retomada de diálogos sobre o domínio do arquipélago, um porta-voz do
primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse que a posição do país sore as
Malvinas é antiga e permanece inalterada.
“A soberania pertence ao Reino Unido e o direito das ilhas à
autodeterminação é primordial. Essa tem sido nossa posição consistente e
continuará sendo“, afirmou o porta-voz, conforme noticiado pela CNN.
A posição defendida pelos britânicos é baseada em fatores como a autodeterminação dos habitantes. Em 2013, foi realizado um referendo popular no arquipélago, onde 99,8% dos habitantes das Ilhas Malvinas (conhecidas como Falklands no Reino Unido) votaram a favor de permanecer como um Território Ultramarino britânico.
Se na geopolítica mundial a relação entre Argentina e
Inglaterra tem sido carregada de instabilidades e marcada por uma guerra que
vitimou centenas de jovens em ambos os lados, no futebol moderno, essa
rivalidade é um fantasma que paira sobre as quatro linhas sempre que as duas
seleções se encontram.
Desde 1982, as duas equipes protagonizaram alguns dos
encontros mais conturbados da história das Copas do Mundo, transferindo ao
gramado a carga de emoções herdada das linhas de frente de um sangrento embate
no Atlântico.
A histórica “Mão de Deus” de Diego Maradona, que ajudou a
eliminar os ingleses em embate na Copa de 1986
Apenas quatro anos após o fim da Guerra das Malvinas e com
muitas das cicatrizes do conflito ainda abertas para as famílias dos
combatentes — principalmente para os argentinos derrotados — o destino colocou
Argentina e Inglaterra frente a frente em campo pelas quartas de final do maior
torneio futebolístico do planeta, em uma batalha esportiva que ganharia
contornos épicos diante de tantas tensões extracampo e marcaria a história dos
mundiais.
A Inglaterra, campeã do mundo em 1966, e a Argentina, que
conquistou a sua primeira taça do mundial em 1978, decidiriam vaga nas
semifinais da Copa do Mundo do México, no icônico Estádio Azteca, na Cidade do
México.
A seleção argentina tinha como destaque ninguém menos do que
Diego Maradona, símbolo nacional e da retomada do futebol argentino nos anos
1980. Do lado inglês, o atacante Gary Lineker, que terminaria o torneio como o
artilheiro isolado com seis gols marcados.
A Argentina garantiu a vaga vencendo por 2 a 1, mas não sem
polêmica: no primeiro gol do time alviceleste, a bola desviou na mão de
Maradona ao subir para disputar com a zaga inglesa, sem que o juiz invalidasse
o tento. O episódio entraria para o rol da mitologia das Copas do Mundo e da
própria lenda de “Dieguito”.
Questionado após a partida sobre o gol, Maradona disse: “um
pouco com a cabeça, e um pouco com a mão de Deus”. A rivalidade entre Argentina
e Inglaterra em campo poucos anos depois de um sangrento combate que custou a
vida de centenas de jovens acabou marcada pela mística de um dos maiores
jogadores da história e pela vitória com “ajudinha” da arbitragem.
A Argentina ainda bateria a Bélgica por 2 a 0 na semifinal, e
conquistaria o seu segundo título da Copa do Mundo em final contra a Alemanha,
vencendo por 3 a 2. Maradona não marcou, mas Brown, Valdano e Burruchaga
fizeram história com os gols argentinos e garantiram a taça para os “hermanos”.
Em 1998, na Copa da França, foi a vez das duas seleções se
enfrentarem pelas oitavas de final. Os nervos novamente se mostrariam à flor da
pele. Logo no início do segundo tempo, o meia inglês David Beckham, estrela da
equipe, foi expulso por revidar uma entrada dura de Diego Simeone. Após empate
por 2 a 2, a
Argentina acabaria passando nos pênaltis, e sendo eliminada
pela Holanda.
Em 2002, na Copa do Japão e Coreia do Sul, o último encontro
entre Argentina e Inglaterra em mundiais. As duas equipes caíram no mesmo grupo
da primeira fase. No confronto direto, Beckcham fez o gol da vitória inglesa,
de pênalti. A Argentina acabou não se classificando para a fase final. Já a
Inglaterra chegou às quartas, onde cairia diante do Brasil de Ronaldo e
Ronaldinho Gaúcho, que conquistou o pentacampeonato.
A nova batalha: Messi versus KaneNo dia 15 de julho de 2026,
Argentina e Inglaterra voltam a se encontrar em um confronto eliminatório de
Copa do Mundo, em um cenário que, ao menos em campo, remete à “batalha” travada
no México em 1986: a Argentina liderada por seu maior gênio desde Maradona,
Lionel Messi, que levou a alviceleste ao histórico tricampeonato mundial em
2022; do lado inglês, repousa nos pés do craque Harry Kane a esperança de que o
país europeu levante a taça 60 anos após seu único título.
Fatores históricos, políticos, culturais e esportivos que se
acumularam ao longo de décadas tornam cada encontro entre as duas seleções
carregado de simbolismo. Pela semifinal da Copa dos EUA, Canadá e México,
Argentina e Inglaterra escreverão mais um capítulo de uma rivalidade que vai
muito além das quatro linhas, enquanto, nos bastidores, a disputa pelo
arquipélogo das Malvinas parece igualmente longe de ter um desfecho.
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Com informações Revista Sociedade Militar/Fotos reproduções Inteligência Artificial (IA).







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