PAPO DE GUERREIROS (AS): SAIU A SENTENÇA SOBRE O SUBMARINO QUE IMPLODIU COM 44 MILITARES A BORDO; CONFIRA
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| (crédito: foto reprodução Sociedade Militar) |
Postagem publicada à 1h49 desta terça-feira, 11 de agosto de 2026.
O submarino ARA San Juan desapareceu em 15 de novembro de 2017 com 44 tripulantes a bordo, durante uma missão de rotina entre Ushuaia e Mar del Plata. Quase nove anos depois, o Tribunal Oral Federal de Santa Cruz, com sede em Río Gallegos, condenou apenas um dos quatro oficiais da Armada Argentina julgados pelo naufrágio. O caso reacende uma pergunta recorrente entre marinhas sul-americanas: o que um navio de resgate submarino pode e não pode fazer diante de uma tragédia dessa magnitude.
A última mensagem e a implosão
O ARA San Juan zarpou de Ushuaia em 25 de outubro de 2017
rumo à Base Naval de Mar del Plata. Na madrugada de 15 de novembro, o
comandante Pedro Martín Fernández reportou entrada de água por um snorkel e
início de um curto-circuito nas baterias.
A última comunicação com terra ocorreu às 7h19. Às 10h52
daquele mesmo dia, um evento hidroacústico compatível com uma implosão foi
captado por organismos internacionais de monitoramento, entre eles a
Organização do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares.
O submarino só foi localizado um ano depois, em 17 de
novembro de 2018, pela empresa americana Ocean Infinity, contratada pelo
governo argentino. O casco foi encontrado a 917 metros de profundidade, a cerca
de 500 quilômetros de Comodoro Rivadavia, numa região de cânions submarinos.
Peritos descreveram o casco resistente como praticamente íntegro até os 400
metros, sinal de que a estrutura resistiu à pressão da água até muito além da
profundidade operacional segura da embarcação.
A sentença que saiu em julho
Em 3 de março de 2026, teve início em Río Gallegos o
julgamento oral de quatro ex-oficiais da Armada Argentina: o contra-almirante
Luis Enrique López Mazzeo, o capitão de navio Claudio Javier Villamide, o
capitão de navio Héctor Alonso e o capitão de fragata Hugo Correa. Todos
responderam por descumprimento dos deveres de funcionário público e por estrago
culposo agravado pela morte dos 44 tripulantes.
Trechos dos autos: em 25 de outubro de 2017, o submarino
partiu da Base Naval de Mar del Plata com destino à Base Naval de Ushuaia “em
condições técnicas e operacionais deficientes para desempenhar as tarefas
atribuídas”. A acusação afirma que, desde a conclusão de sua reforma de
meia-vida em 2015, a unidade apresentava “numerosos defeitos técnicos
documentados pelos diversos comandantes que ocuparam o cargo”.
A acusação sustentou que o submarino zarpou para sua última
missão sem estar em condições plenas de navegabilidade, com uma restrição de
imersão de 100 metros por pendências de testes após reparos de meia-vida. Em 8
de julho de 2026, o tribunal, formado pelos juízes
Mario Reynaldi, Enrique Nicolás Baronetto e Luis Alberto
Giménez, condenou Villamide, então à frente da Força de Submarinos, a três anos
de prisão em suspensão condicional. Os outros três acusados foram absolvidos
por unanimidade.
Villamide negou responsabilidade direta pelo naufrágio
durante o julgamento e afirmou que a causa técnica exata da tragédia segue sem
explicação definitiva. Os fundamentos completos da sentença, que vão detalhar o
raciocínio jurídico por trás da condenação e das absolvições, estão previstos
para 21 de agosto de 2026.
As advogadas Valeria Carreras e Lorena Arias, que representam
34 famílias de tripulantes, já anunciaram que vão recorrer à Câmara Federal de
Cassação Penal assim que os fundamentos forem divulgados, tanto contra as
absolvições quanto contra o que consideram uma pena branda diante da magnitude
da tragédia.
O navio de resgate que o Brasil tem hoje
A Marinha do Brasil opera atualmente o Navio de Socorro
Submarino Guillobel, indicativo K120, incorporado em maio de 2020 para
substituir o veterano NSS Felinto Perry, que serviu por 32 anos e foi
desativado em dezembro daquele ano. O Guillobel nasceu em 2009 como o navio de
apoio offshore Adams Challenge, construído no estaleiro espanhol Balenciaga, e
foi adquirido pela Marinha em outubro de 2019 por meio de compra de
oportunidade, já operado em mergulho saturado nos golfos do México e da Guiné.
K120 - Guillobel - Navio de socorro submarino da Marinha do
Brasil
K120 – Guillobel – Navio de resgate submerino da Marinha do
BrasilO navio está subordinado ao Comando de Operações Navais e apoia
diretamente a Força de Submarinos, incluindo as provas de mar dos novos
submarinos convencionais construídos em Itaguaí sob o Programa de
Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB. Suas características permitem também
emprego dual em apoio logístico ao Programa Antártico Brasileiro, com eventual
reforço à Estação Antártica Comandante Ferraz.
Antes do Guillobel, o Felinto Perry cumpriu esse papel desde
1988. O navio dispunha de câmaras de descompressão, sino atmosférico de resgate
e um veículo remotamente operado capaz de atuar a até 600 metros de
profundidade. Em 2009, todos os submarinos da Marinha do Brasil já estavam
qualificados para operações de socorro por meio do Sino de Resgate Submarino,
incluindo exercícios conjuntos que já contaram até com observadores da própria
Armada Argentina, interessados na capacidade brasileira de socorro e salvamento
de submarinos.
O que essas embarcações conseguem fazer
Navios desse tipo operam com posicionamento dinâmico,
permitindo manter posição exata sobre o local do sinistro mesmo em mar aberto.
Eles acoplam sinos de resgate diretamente à escotilha do submarino sinistrado,
transferem ar de alta pressão e material de sobrevivência, prestam assistência
médica a tripulantes que escapem pela guarita de salvamento e utilizam veículos
operados remotamente para localizar e inspecionar o casco no fundo do mar.
A capacidade brasileira de resgate por sino atinge
profundidades de até 300 metros, com apoio de mergulho saturado. Veículos
remotamente operados chegam a faixas maiores, mas o resgate humano por sino de
acoplamento depende de o submarino estar pousado dentro de um limite de
profundidade e inclinação compatível com o equipamento.
Por que um resgate não teria sido possível
O ARA San Juan foi encontrado a 917 metros de profundidade,
quase o triplo do limite operacional de resgate por sino de qualquer navio de
socorro submarino sul-americano, incluindo o Guillobel. Mesmo a rede
internacional de sistemas de resgate submarino, como o sistema britânico NATO
Submarine Rescue System, projetado para profundidades maiores, tem limites
operacionais muito abaixo dos 900 metros.
Além disso, peritos apontaram que o evento hidroacústico
registrado às 10h52 de 15 de novembro de 2017 foi compatível com uma implosão,
o colapso estrutural quase instantâneo do casco sob pressão da água. Uma
implosão nessas condições não deixa margem para operação de resgate, porque a
perda da integridade estrutural e da tripulação ocorre em frações de segundo,
muito antes de qualquer navio de socorro poder ser mobilizado e posicionado
sobre o local.
Isso não torna irrelevante a existência de navios como o
Guillobel. Eles seguem sendo essenciais para emergências dentro da faixa de
profundidade operacional, que cobre a maior parte dos cenários realistas de
acidente com submarinos convencionais em plataforma continental. O caso ARA San
Juan expõe, isso sim, um limite físico que nenhuma marinha do mundo resolveu
por completo: quando um submarino ultrapassa sua profundidade de colapso, a
tecnologia de resgate humano deixa de ter função.
O que fica do caso, nove anos depoisA condenação isolada de
Villamide fechou uma etapa judicial, mas não encerrou o debate sobre cadeia de
comando, manutenção e decisão de zarpar.
Para as famílias das 44 vítimas, a sentença de 8 de julho de
2026 representa ao mesmo tempo uma vitória simbólica contra a impunidade e uma
frustração diante das três absolvições. O desfecho definitivo, incluindo
eventuais recursos à Câmara Federal de Cassação Penal, ainda depende da
publicação dos fundamentos completos, marcada para 21 de agosto de 2026.
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Com informações Revista Sociedade Militar.
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