NAVIO DA DÉCADA DE 80 CHAMA ATENÇÃO E ESCANCARA DURO DESAFIO DA MARINHA: 'TREINAR PARA "GUERRA DO FUTURO" EM EQUIPAMENTOS DO SÉCULO PASSADO'
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 4h35 desta sexta-feira, 05 de junho de 2026.
Navio da Marinha de 1980 atrai olhares em Niterói e expõe a crise orçamentária da Defesa. Veja como o U10 contrasta com a preparação para as guerras do futuro.
O feriado de Corpus Christi foi marcado por uma cena inusitada que rendeu fotos e olhares curiosos na orla de Niterói (RJ). Quem aproveitava a manhã de folga próximo à Praia de São Francisco foi surpreendido pela passagem de uma embarcação cinza da Marinha do Brasil dividindo o mar com as já tradicionais canoas havaianas.
O navio, entretanto, não era um destróier de última geração, mas sim o Aviso de Instrução Aspirante Nascimento (U10), uma embarcação já com sinais da idade, com mais de 45 anos de serviço que ilustra perfeitamente um dos maiores desafios atuais das Forças Armadas brasileiras: o envelhecimento da frota frente aos pesados cortes de orçamento.
Enquanto os futuros oficiais a bordo em tese são preparados para combates que, no futuro, serão decididos por Inteligência Artificial (IA) e sistemas de altíssima precisão, seu principal laboratório flutuante ainda é um projeto concebido na era da Guerra Fria.
O que é o aviso de Instrução Aspirante Nascimento?
Para os populares que acompanharam o navio ao fundo na paisagem da Baía de Guanabara, a embarcação com o indicativo “U10” pintado no casco parecia apenas uma patrulha de rotina. Contudo, trata-se de um navio voltado inteiramente para a sala de aula prática dos futuros comandantes do mar.
Construído pelo estaleiro EBRASA, em Santa Catarina, e incorporado à Armada Brasileira em 13 de dezembro de 1980, o Aspirante Nascimento é um dos navios subordinados à histórica Escola Naval. Seu objetivo principal é fornecer instrução prática de Náutica, Máquinas, Armamento, Comunicações e Manobras.
Fatos curiosos sobre a embarcação:
Nome de Herói: Foi batizado em homenagem ao Aspirante Joaquim Cândido do Nascimento, morto heroicamente em combate a bordo da Canhoneira Mearim, durante a Guerra do Paraguai, em 1865.
Sobrevivente do tempo: Quase meio século após o batimento de sua quilha (em 1979), o navio exige manutenção constante e esforço hercúleo de sua tripulação para continuar operando com segurança.
O Paradoxo: Um navio de 1980 para as guerras do futuro
A passagem do U10 por São Francisco levanta um debate urgente entre especialistas em defesa: como preparar os novos oficiais para as guerras do século XXI utilizando plataformas projetadas no século XX?
Nos conflitos modernos, observamos uma rápida escalada no uso de drones autônomos (de superfície, aéreos e submarinos), sistemas de mísseis hipersônicos, guerra eletrônica de amplo espectro e a integração massiva de Inteligência Artificial para a tomada de decisão em frações de segundo. Os comandantes do amanhã precisarão operar em redes integradas de dados onde a precisão cibernética pode definir o vencedor muito antes do primeiro tiro de canhão.
Aprender navegação, manobras de atracação e mecânica clássica a bordo do U10 continua sendo fundamental, a essência do mar e a liderança humana não mudam. Entretanto, o navio é um exemplo material indiscutível das limitações da Força naval brasileira A defasagem tecnológica em uma embarcação desse tipo é obvia, aponta um militar ouvido pela reportagem, e impede que esses jovens oficiais interajam durante esse tipo de adestramento com sensores de última geração, limitando-os ao treinamento em simuladores no continente até que consigam embarcar nos raros navios modernos recentemente adquiridos, como as futuras Fragatas da Classe Tamandaré.
O Alerta de José Múcio: risco de obsolescência
A visão do U10 resistindo bravamente ao tempo espelha diretamente as recentes e graves preocupações levantadas pela cúpula da Defesa em Brasília. Ao longo de 2026, o Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, tem sido enérgico ao denunciar o dramático subfinanciamento das Forças Armadas, tentando frear os sucessivos cortes impostos pela equipe econômica para fechar as metas fiscais.
Múcio alerta que o modelo atual ameaça a soberania do país, uma vez que o Brasil investe cerca de apenas 1,1% do PIB em defesa, muito abaixo do ideal. Em discursos recentes no início deste ano, o ministro foi enfático ao defender o aumento progressivo para 2%, buscando colocar um plano de R$ 800 bilhões na mesa presidencial para evitar o colapso estrutural.
Nas palavras do próprio Múcio sobre o custo de manter a Esquadra: “A Marinha é mais cara e a Aeronáutica também, porque um submarino custa uma fábula, um avião custa uma fábula”. A constante escassez de recursos trava a modernização e a substituição vitalícia. O ministro já sintetizou o risco da obsolescência em bloco em um alerta contundente que marcou a atual crise: “Daqui a pouco vai ter marinheiro sem navio, aviador sem avião e soldado do Exército sem equipamento para lutar”.
O resultado de orçamentos contingenciados são navios que já deveriam ter sido descomissionados e substituídos operando no extremo do seu limite, como os bravos Avisos de Instrução.
Reflexos para o Brasil: Entre a restrição orçamentária e a necessidade
A imagem pitoresca do navio U10 cruzando as águas tranquilas no feriado, no mesmo quadro em que civis remam por esporte em Niterói, é nostálgica, mas carrega um sinal de advertência contundente.
Por um lado, exalta a extrema qualidade da manutenção naval brasileira e a resiliência inquestionável de seus marinheiros, que conseguem extrair vida útil e eficiência instrucional de plataformas antigas. O Aspirante Nascimento continua a cumprir de cabeça erguida sua nobre missão de forjar a base técnica de quem protegerá nossa nação.
Por outro lado, evidencia um risco sistêmico. O Brasil, guardião da “Amazônia Azul“, área riquíssima em petróleo, biodiversidade e rotas de comunicação, não pode ficar à mercê do desgaste do tempo. Para que a Marinha do Brasil consiga neutralizar ciberataques, identificar enxames de drones inimigos e manusear IA no campo de batalha do futuro, a infraestrutura da Escola Naval precisará acompanhar o século atual.
Até que o país decida pagar o preço tecnológico de sua soberania, os velhos cascos de aço dos anos 80 continuarão a ser vistos navegando na Bahia de Guanabara e outros locais do país.
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Com informações e foto reproduções da Revista Sociedade Militar.




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