VAMOS ACOMPANHAR QUEM SABE FALAR A REAL SOBRE PISO DOS PROFESSORES?
![]() |
| (crédito: foto reprodução para ilustração do texto) |
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 10h45 deste domingo, 1º de fevereiro de 2026.
Esclarecendo o que é Piso Nacional do Magistério, o que não
é, e quem finge cumprir a lei
Falar em Piso Nacional do Magistério no Brasil exige, antes
de tudo, honestidade política e conceitual. Não se trata de um favor do Estado
nem de uma concessão graciosa. Piso é salário base, ponto de partida, não soma
de penduricalhos.
Em 21 de janeiro, uma quarta-feira, o governo Lula reajustou
o piso salarial nacional do magistério da educação básica pública em 5,4%,
elevando-o para R$ 5.130,63 mensais. Por se tratar de medida provisória, o novo
valor tem vigência imediata e já passa a valer neste início de 2026, garantindo
ganho real acima da inflação para a categoria.
O governo federal, ao instituir o Piso Nacional do Magistério
e reajustá-lo acima da inflação, cumpre um papel importante. Reconhece, ao
menos formalmente, que o trabalho docente precisa de valorização mínima
garantida em lei nacional.
O problema começa quando essa política encontra a realidade
dos estados e municípios. Muitos simplesmente não pagam o piso como salário
base, apesar da obrigação legal. Outros fazem pior: criam artifícios
administrativos para simular o cumprimento da lei.
Em diversos entes federativos, o professor ingressa na
carreira com um salário base inferior ao piso nacional. Ao longo dos anos, com
triênios, gratificações e auxílios, a remuneração total chega ao valor do piso.
E isso é vendido como cumprimento da lei.
Não é. Isso é engodo. O piso não é teto nem soma de
benefícios. É o valor mínimo do vencimento básico inicial da carreira. Todo o
resto são direitos adquiridos ao longo do tempo, não podem ser usados para
mascarar descumprimento legal.
Essa manobra engana a opinião pública, confunde a sociedade e
enfraquece a luta da categoria. Ao divulgar que “o piso é pago”, governos
estaduais e municipais criam a falsa impressão de que a valorização docente é
realidade concreta.
Não é. Basta conversar com professores da rede pública para
perceber o abismo entre discurso e prática. Jornadas extenuantes, múltiplas
matrículas, adoecimento psíquico e salários iniciais indignos continuam sendo a
regra.
O Piso Nacional do Magistério foi pensado como instrumento de
indução federativa. A União define um patamar mínimo civilizatório e os demais
entes devem adequar suas carreiras. Quando isso não ocorre, há violação direta
da lei.
É aqui que a crítica precisa alcançar também o governo
federal. Não basta reajustar o piso acima da inflação se não houver mecanismos
efetivos de cobrança, fiscalização e indução financeira para garantir seu
pagamento real.
A União não pode se limitar ao papel simbólico. Precisa
assumir responsabilidade política concreta. Piso sem garantia de execução vira
peça de propaganda, não política pública estruturante.
Os estados e municípios alegam, recorrentemente, falta de
recursos. Esse argumento não se sustenta integralmente. O financiamento da
educação básica no Brasil envolve Fundeb, complementações federais e
vinculações constitucionais obrigatórias (há recursos para o piso).
Existem, sim, problemas de gestão, prioridades políticas
distorcidas e escolhas deliberadas. Quando se opta por renúncias fiscais, obras
eleitoreiras ou parcerias questionáveis, o piso do professor deixa de ser
prioridade.
A lógica é perversa. O professor é apresentado como custo,
nunca como investimento. E isso explica por que o salário base inicial continua
baixo, mesmo após a implementação do piso nacional.
Outro ponto pouco esclarecido é que o piso vale para uma
jornada de até 40 horas semanais. Muitos governos fragmentam a carga horária
para reduzir o impacto financeiro, precarizando vínculos e estimulando
múltiplos contratos.
Essa fragmentação também afeta a carreira, a formação
continuada e o vínculo pedagógico com os estudantes. O piso, quando
corretamente aplicado, deveria fortalecer a carreira, não servir como teto
informal.
Defender o piso é defender a escola pública. É afirmar que
não há educação de qualidade sem condições materiais dignas para quem ensina.
Discurso meritocrático nenhum substitui salário justo.
É preciso dizer com todas as letras: governos que não pagam o
piso como salário base estão descumprindo a lei. Não se trata de opinião, mas
de fato político e jurídico.
Também é preciso esclarecer à sociedade que valorização
docente não é privilégio corporativo. É política estrutural de desenvolvimento
social. País algum melhora seus indicadores educacionais desprezando seus
professores.
A estratégia de inflar remunerações finais com gratificações
instáveis é, além de ilegal, perversa. Retira previsibilidade, enfraquece
aposentadorias e mantém o professor refém de políticas de ocasião.
O Piso Nacional do Magistério precisa ser entendido como base
de carreira, articulado a planos de cargos, progressões transparentes e
financiamento adequado. Fora disso, vira peça decorativa em discursos oficiais.
Enquanto isso não ocorrer, reajustes anunciados com pompa
continuarão não chegando ao bolso de quem está na sala de aula. E o desgaste da
profissão seguirá afastando novos professores da educação básica.
Valorizar o piso é enfrentar interesses locais, romper com
velhas práticas administrativas e assumir compromisso real com a educação
pública. Não há caminho fácil, mas há caminho necessário.
Falar a real sobre o piso é romper com a hipocrisia
institucional. É esclarecer conceitos, denunciar fraudes semânticas e exigir
coerência entre lei, orçamento e prática.
Sem isso, o Piso Nacional do Magistério continuará existindo
no papel, enquanto o professor segue sobrevivendo no improviso. E nenhuma
política educacional resiste quando quem ensina não consegue viver com
dignidade.
**********
Texto do Professor de História, especialista em História Moderna e
Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, doutor em História
Econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora/ICL Notícias.
.jpeg)







.jpeg)

.jpg)
Comentários