RELATÓRIO DA ORGANIZAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS INTERNACIONAL TRAZ REVELAÇÕES INÉDITAS SOBRE OPERAÇÃO CONTENÇÃO NO RJ; ENTENDA
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| (crédito: foto reprodução Portal Agência Brasil) |
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 8h40 desta quarta-feira, 28 de outubro
de 2026.
Relatório da Humans Right Watch revela indícios de que
policiais burlaram câmeras antes de matarem 117 pessoas na Vila Cruzeiro
Uma investigação independente feita pela organização de
direitos humanos Humans Right Watch (HRW) traz fortes evidências de que
policiais civis e militares agiram deliberadamente para impedir o funcionamento
das câmeras corporais momentos antes de matarem grande parte dos 117 civis
durante a Operação Contenção – ação realizada nos complexos do Alemão e da
Penha em 28 de outubro de 2025. A análise dos laudos cadavéricos também mostra
que grande parte dos mortos foi baleada ao menos quatro vezes.
A Operação Contenção é a maior chacina policial da história
do Brasil. Além dos 117 civis mortos, a ação perpetrada pelo governo Cláudio
Castro (PL) levou à morte de cinco policiais: três civis e dois militares,
chegando a um total de 122 vítimas fatais. A ação completa um ano nesta
quarta-feira (28) e, até então, nenhum policial foi processado por envolvimento
nas mortes.
A cadeia de comando responsável pelo planejamento e pela
execução da operação também não foi responsabilizada. Pelo contrário: os
secretários de Polícia Civil e Polícia Militar da época foram eleitos neste
ano.
Felipe Curi, que comandava a Polícia Civil, se tornou um dos
deputados federais mais votados do Rio com o número 1122 –uma referência clara
ao número de mortos na Penha. Já o então comandante da PM , o coronel da PM
Marcelo de Menezes foi eleito deputado estadual pelo PL.
Parte das descobertas feitas pela entidade corroboram
informações publicadas pelo ICL Notícias com exclusividade nos dias seguintes à
ação, mostrando que a atuação das polícias no Complexo da Penha teve todas as
características de uma operação vingança.
São chamadas assim as ações que passam a ter alta letalidade
após policiais serem mortos ou feridos –caso da Operação Contenção.
- Policiais prejudicaram uso das câmeras corporais
Cronologia da barbárie
A Operação Contenção reuniu cerca de 2,5 mil policiais civis
e militares de diversas delegacias e batalhões, entre eles unidades especiais.
Pela PM, foram escalados policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope),
Batalhão de Choque e do Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão
(Recom), além de unidades convencionais.
Já pelo lado da Polícia Civil, a Coordenadoria de Recursos
Especiais (Core), força de elite da corporação, tomou parte, assim como agentes
de delegacias distritais.
A ação começou nas primeiras horas da manhã e enfrentou forte
resistência dos criminosos do Comando Vermelho. O principal foco dos confrontos
foi a Vila Cruzeiro, principal favela do Complexo da Penha e um dos quartéis
generais da facção no estado.
Três dias depois do massacre, reportagem do ICL Notícias
mostrou que todos os policiais mortos durante a operação foram baleados durante
a manhã, enquanto as forças policiais avançavam pelas vielas da comunidade.
Grande parte das mortes cometidas por policiais ocorreram só
no início daquela tarde, em uma área de mata entre os complexos da Penha e do
Alemão conhecida como Vacaria. A cronologia mostra que os policiais já sabiam
da morte dos colegas quando mataram os supostos traficantes –o que corrobora a
hipótese de uma operação vingança.
“Quatorze policiais foram baleados e hospitalizados naquele
dia, de acordo com documentos da investigação e registros hospitalares, sendo
que todos, exceto um, foram internados até as 13h30. Quatro policiais morreram,
e mais um viria a falecer nas semanas seguintes”, diz um trecho do relatório.
Os elementos apurados pela HRW corroboram essa afirmação com
evidências robustas. A ONG analisou um grande volume de evidências e usou
inteligência artificial para filtrar e sistematizar momentos-chave da operação.
A apuração independente utilizou:
4.400 horas de câmeras corporais de 527 policiais;
Laudos de necropsia dos 122 mortos;
Mais de 500 vídeos e fotografias feitos durante a Operação
Contenção;
8,8 mil páginas da investigação do Ministério Público do Rio
de Janeiro (MP-RJ);
E fez 41 entrevistas com familiares, moradores e autoridades
A principal conclusão do estudo é que nenhuma das 122 mortes
foi registrada pelas câmeras corporais dos policiais. Esse dado –somado a
centenas de evidências de que os policiais manipularam, obstruíram ou deixaram
acabar a bateria dos equipamentos– revelam uma ação deliberada para impedir os
registros de possíveis crimes.
Para chegar a essa conclusão, o estudo usou inteligência
artificial para registrar, com base no áudio e nas imagens produzidas pelas
câmeras corporais, momentos-chave da operação, como disparo de tiros, abordagem
a suspeitos e conversas relevantes.
Sem imagens do ‘Muro do Bope’
O caso mais extremo envolve os policiais do Bope. Foram eles
os responsáveis por grande parte das mortes. Com conhecimento prévio da
estratégia dos criminosos da Vila Cruzeiro –sustentar o tiroteio nas vielas e,
em seguida, fugir para o Complexo do Alemão– eles formaram o que ficou
conhecido como “muro do Bope” na área de mata.
Os complexos do Alemão e da Penha ficam em faces opostas da
Serra da Misericórdia, uma área montanhosa de até 260 metros de altura que
ocupa mais de 40 km² na Zona Norte do Rio de Janeiro.
No topo fica a Vacaria, área de mata que ficou conhecida após
um helicóptero da TV Globo mostrar ao vivo a passagem de centenas de suspeitos
durante a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010.
Durante a fuga pela Vacaria, os PMs do Bope encurralaram os
suspeitos e mataram dezenas deles.
- Mapa mostra distribuição do efetivo durante a Operação
Contenção
Grande parte dos mortos na Operação Contenção foram
encontrados lá. O Bope removeu –contra decisão do STF– 33 corpos da região.
Após o fim dos tiroteios, moradores recuperaram 62 corpos, grande parte deles
na área de mata. Outros 27 mortos foram levados por policiais e por moradores
para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, vizinho ao Complexo da Penha.
“Embora um delegado da Polícia Civil tenha dito ao Ministério Público que “alguns” suspeitos se entregaram e foram presos na mata, não há registro dessas supostas prisões na investigação do Ministério Público, à qual a Human Rights Watch teve acesso em maio”, afirma a HRW.
O suposto confronto na área da Vacaria deixou mais de 100
mortos pelo lado dos suspeitos de envolvimento com o tráfico, mas nenhum entre
os policiais do Bope. A análise das câmeras corporais revela um padrão de que
os agentes impediram o registro de provas de um possível massacre. Praticamente
todos os equipamentos pararam de gravar por volta de meio dia –pouco antes do
muro do Bope ser formado.
Dados mostram que câmeras corporais do Bope foram desligadas antes de confronto na mata
Dados mostram que câmeras corporais do Bope foram
desligadas antes de confronto na mata (Crédito: HRW)
Com as câmeras prejudicadas, não foi registrado nenhum tiro
disparado pelos policiais do Bope após as 12h11 –horário em que as imagens
cessam completamente
- Análise mostra que nenhuma câmera registrou tiroteio na Vacaria
Outros elementos reforçam a hipótese de que os agentes do
Bope cometeram um massacre. O primeiro deles são múltiplos relatos de
familiares com mensagens desesperadas de suspeitos que estavam escondidos na
área da Vacaria.
“À medida que a operação avançava por cerca de 15 horas,
moradores receberam mensagens e ligações desesperadas de jovens, alguns deles
provavelmente armados, na mata da Vacaria. Eles diziam que estavam
encurralados, que queriam se render, não queriam morrer. Em seguida, seus
telefones ficaram em silêncio”, revela o relatório.
As forças policiais prenderam 99 pessoas naquele dia. No
entanto, não há nenhuma evidência de que alguém tenha sido detido na Vacaria.
Dali, quase todos saíram mortos.
Mortos atingidos por múltiplos disparos
A análise dos laudos de necropsia dos 122 mortos durante a
Operação Contenção –tanto com o uso de inteligência artificial, quanto por um
painel internacional de especialistas– mostra que grande parte deles foram
baleados pelo menos quatro vezes. Os documentos produzidos no Instituto
Médico-Legal (IML) também revelam que grande parte dos mortos pela polícia
foram baleados pelas costas.
“De acordo com peritos do Grupo Independente de Especialistas
Forenses do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura
(Independent Forensic Expert Group of the International Rehabilitation Council
for Torture Victims), consultados pela Human Rights Watch, as
evidências—incluindo o número de vezes que cada vítima foi baleada e o elevado
número de tiros na cabeça—sugerem que muitas foram atingidas e mortas
intencionalmente”, diz outro trecho do relatório.
Os corpos de oito mortos tinham dez ou mais marcas de entrada
de projéteis de armas de fogo, de acordo com a análise dos laudos de necropsia.
Um terço dos 116 mortos com laudos analisados foram atingidos por seis ou mais
tiros. E um total de 62% dos mortos foram baleados pelo menos quatro vezes.
Os dados também revelam que mais de 40% das pessoas mortas
por policiais foram atingidas por tiros na cabeça. Alguns casos chamam especial
atenção:
Um homem de 37 anos de idade levou pelo menos 11 tiros nas costas – sete deles no lado esquerdo do peito, onde fica o coração.
Arte reproduz dados de laudo de necropsia de morto com 11 tiros
Um outro morto durante a operação –levado para o hospital por
policiais– foi baleado 10 vezes. O homem de 28 anos recebeu seis tiros à
queima-roupa –dados a uma distância de menos de 60 cm, segundo os peritos.
Outro lado
O ICL Notícias procurou as polícias Civil e Militar na manhã
desta quarta-feira (28) para questionar os principais pontos apresentados pelo
relatório da HRW. Assim que houver manifestação das corporações, os
posicionamentos serão incluídos.
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Com informações Portal Agência Brasil.






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