REFLEXÃO: ‘O TERCEIRO TURNO DOS INTOLERANTES’
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| (crédito: imagem reprodução 'Meta IA' para ilustração do texto) |
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 8h20 deste sábado, 31 de outubro de
2026.
Da fuga de Flávio Bolsonaro à pressão do mercado, a derrota
nas urnas foi seguida por perseguições e ameaças a direitos
O Brasil mal havia terminado de contar os votos quando
começou a contagem dos direitos que alguns gostariam de retirar dos
brasileiros. O direito de votar, de trabalhar, de expressar uma opinião, de
comprar comida e até de existir em paz. O candidato derrotado fugiu do país. O
dólar disparou. A Bolsa despencou. Trabalhadores denunciaram ameaças de
demissão, comerciantes viraram alvos de boicotes e comunidades indígenas
enfrentaram episódios de violência. Tudo isso enquanto milhões de brasileiros
tentavam fazer uma coisa aparentemente intolerável para determinados setores da
sociedade: seguir a vida depois de uma eleição.
Bem-vindos ao terceiro turno dos intolerantes.
É uma competição curiosa. Não tem urna eletrônica, mesário ou
horário eleitoral. O Tem jatinho particular, terminal de negociação, patrão
fiscalizando rede social de funcionário e gente convencida de que pode
determinar quais direitos os outros merecem exercer.
Talvez se alguns partidos tivesse encontrado um destino
diferente se houvesse dedicado à conquista de eleitores a mesma energia que
alguns de seus aliados dedicaram a dificultar o exercício do voto. Em 2022,
operações da Polícia Rodoviária Federal, especialmente no Nordeste, foram
investigadas por suspeitas de interferência no deslocamento de eleitores.
Quatro anos depois, o transporte público voltou a produzir denúncias graves,
desta vez em cidades como Salvador e São Paulo.
É uma inversão extraordinária da lógica democrática. Em vez
de perguntar por que o eleitor não escolheu determinado candidato, discute-se
por que ele conseguiu chegar à seção eleitoral.
Mas a eleição terminou. Lula venceu segundo mais votado, que poderia ter reconhecido o resultado e reorganizado sua oposição,
preferiu atravessar a fronteira com a Argentina e embarcar em um avião
particular rumo aos Estados Unidos, depois de receber uma ordem judicial para
entregar seus passaportes.
Já em território americano, divulgou uma carta contestando o
resultado eleitoral. A cena tem alguma coisa de comédia política mal escrita. O
sujeito disputa a Presidência, perde, deixa o país e passa a contestar a
eleição a milhares de quilômetros de distância. A democracia brasileira,
aparentemente, deveria funcionar como uma companhia aérea: se o destino não
agrada ao passageiro, ele exige a alteração da rota.
Enquanto isso, na Faria Lima, outra modalidade de
inconformismo encontrava expressão nos monitores do mercado financeiro.
Na segunda-feira, o Ibovespa despencou 13,88% e o dólar
disparou mais de 8%. A reação refletiu preocupações fiscais, surpresa com o
resultado e movimentos de investidores que precisaram rever suas apostas. Mas
também expôs uma velha tensão brasileira: a tentativa de transformar
preferências econômicas em exigências políticas.
A Faria Lima tem todo o direito de escolher seus
investimentos. O que não tem é um voto adicional na eleição presidencial.
E quem paga a conta de uma instabilidade cambial prolongada
não é apenas quem acompanha gráficos na corretora. Um dólar persistentemente
mais caro pode pressionar combustíveis, alimentos e medicamentos. O operador
financeiro pode comprar proteção cambial. A família que já compromete quase
toda a renda com despesas básicas não dispõe da mesma alternativa.
Mas havia quem considerasse insuficiente manifestar
descontentamento com o resultado. Era preciso descobrir em quem o funcionário
havia votado.
O Ministério Público do Trabalho recebeu milhares de
denúncias de assédio eleitoral ao longo de 2026, incluindo uma nova onda depois
do segundo turno. Nas redes sociais, circularam campanhas incentivando
empresários a identificar e demitir trabalhadores que apoiaram Lula.
Comerciantes também passaram a integrar listas de boicote por suas supostas
preferências políticas.
É uma concepção bastante peculiar de liberdade. O patrão pode
defender suas convicções, financiar campanhas e publicar manifestos. O
empregado, aparentemente, deveria consultar o departamento de recursos humanos
antes de exercer os mesmos direitos.
E então chegamos à parte da semana em que o absurdo deixa de
ser engraçado.
Em Mato Grosso do Sul, comunidades Guarani Kaiowá denunciaram
ameaças e episódios de violência. Entre os casos levados às autoridades está um
áudio atribuído a um servidor municipal que sugeria envenenar a água consumida
por indígenas em represália ao resultado eleitoral.
A violência contra os povos indígenas não começou nesta
eleição. Tem raízes históricas, disputas territoriais e uma longa trajetória de
impunidade. Mas ameaçar pessoas por suas escolhas políticas, em comunidades que
já enfrentam tantas violações, acrescenta uma dimensão particularmente brutal
ao problema.
Talvez essa seja a conexão mais perturbadora entre
acontecimentos tão diferentes.
Quando se dificulta o transporte de eleitores, ameaça-se o
direito de votar. Quando a instabilidade financeira compromete o poder de
compra, o direito de consumir fica pressionado. Quando um trabalhador é
ameaçado de demissão por sua opinião, sua liberdade de expressão passa a
depender da tolerância do patrão. Quando comerciantes são intimidados, até
trabalhar e vender pode se tornar motivo de perseguição.
E quando comunidades indígenas são ameaçadas, já não estamos falando apenas do direito de votar, trabalhar ou falar. Estamos falando do direito de existir.
São episódios de naturezas e responsabilidades diferentes,
mas que revelam como a intolerância política pode atingir dimensões cada vez
mais fundamentais da vida.
Talvez alguns devessem ter dedicado mais tempo a convencer
brasileiros a votar em suas propostas do que a tentar restringir direitos.
Afinal, conquistar votos exige diálogo. Impor medo exige apenas encontrar
alguém em posição de vulnerabilidade.
O Brasil foi às urnas para escolher um presidente, não para
conceder a candidatos, empresários ou operadores financeiros o poder de decidir
quais direitos seus concidadãos merecem conservar.O terceiro turno dos malucos
pode até não ter data para terminar. Mas há uma coisa que ele não tem o direito
de fazer: transformar a derrota de alguns na perda de direitos de todos.
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Autor Jornalista Cleber Lourenço Portal ICL Notícias.











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