CRÔNICA: O SOM DOS PASSOS QUE DESENHAM O AMANHÃ

(crédito: foto reprodução 'Meta IA' para ilustração do texto)


Por: Alvaro Neves.

Crônica publicada às 6h15 desta sexta-feira, 09 de outubro de 2026.

Olhar para o mundo nos últimos dias é como assistir a um outdoor em movimento, pintado com as cores da urgência. Pelas frestas das telas de nossos celulares ou pelas janelas que dão para as avenidas centrais, o cenário se repete em fusos horários distintos: uma multidão de rostos jovens, mochilas nas costas, cartazes erguidos com a firmeza de quem segura o próprio destino. Eles estão se levantando.

Há quem olhe para a juventude com um ceticismo cansado, rotulando-a de apática ou perdida em labirintos virtuais. Que grande equívoco. Quando o calo aperta na carne da história, são as pernas mais jovens que primeiro correm na direção do vento. Não importa o idioma ou o continente; a gramática da indignação é universal.

Em um canto do mapa, o grito é por educação. Querem livros, carteiras dignas, o direito de decifrar o mundo e de ter um futuro que não seja roubado antes mesmo de começar. Eles sabem que uma caneta na mão é o escudo mais potente contra a escuridão da ignorância. Em outra coordenada, a palavra de ordem é democracia. Jovens que sequer viram os regimes mais duros do passado compreendem, por um instinto quase biológico, que a liberdade é como o oxigênio: só se nota a sua importância quando ela começa a faltar. Eles marcham pelo direito de falar, de escolher, de discordar sem medo.

Há uma beleza quase dolorosa nesse levante global. É a percepção de que esses rapazes e moças não estão apenas contestando o presente; eles estão fazendo o inventário do futuro que vão herdar. Quando saem às ruas pela liberdade, estão nos lembrando — a nós, mais velhos e muitas vezes acomodados pelos compromissos do cotidiano — que as grandes conquistas sociais não são monumentos de pedra inabaláveis, mas jardins delicados que precisam ser regados e protegidos todos os dias.

O mundo, com suas engrenagens pesadas e burocráticas, costuma resistir ao novo. Mas a história tem pressa, e a juventude é o motor dessa velocidade. Eles trazem nos olhos o brilho incômodo de quem não aceita o "sempre foi assim" como resposta. Enquanto as ruas ecoarem com os passos dessa geração, o amanhã ainda será um território de esperança.

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