EX-COMANDANTE DA AERONÁUTICA NO GOVERNO BOLSONARO PROMETE ABRIR CAIXA-PRETA EM LIVRO SOBRE CONFLITOS NO ALTO COMANDO DURANTE TENTATIVA DE GOLPE

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(crédito: foto reprodução 'IA Meta' para ilustração do texto)

Por: Alvaro Neves.

Postagem publicada às 20h15 desta terça-feira, 04 de agosto de 2026.

Relato em primeira pessoa de Carlos Baptista Junior promete expor reuniões, pressões e divergências no comando militar durante a crise institucional que atravessou o fim do governo Bolsonaro e antecedeu a posse de Lula em janeiro de 2023 no Brasil.

Uma parte decisiva da crise institucional ocorrida depois das eleições de 2022 foi discutida longe das câmeras, dentro de gabinetes, residências oficiais e salas ocupadas pelas mais altas autoridades militares do país.

Agora, um dos oficiais que acompanhou essas conversas pretende apresentar sua própria versão sobre pressões, reuniões e conflitos que atravessaram o comando das Forças Armadas.

O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, lançará em setembro o livro Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista, pela Autêntica Editora.

Segundo a Revista Fórum, com base em informações divulgadas pela coluna de Lauro Jardim, de O Globo, a obra reconstruirá acontecimentos ocorridos entre 2021 e a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023.

Ex-comandante apresentará versão pessoal

Baptista Junior esteve à frente da Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023, período que incluiu o agravamento da tensão entre Bolsonaro e instituições como o Supremo Tribunal Federal, a eleição presidencial e as discussões realizadas após a derrota do então presidente.

O brigadeiro construiu uma carreira de 46 anos e ocupou postos como a presidência da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate, a chefia de Operações Conjuntas do Ministério da Defesa e o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro antes de assumir a chefia da FAB.

O livro chega ao debate público como um relato em primeira pessoa de um militar que ocupava um dos três postos mais importantes da estrutura de Defesa brasileira.

A expressão “livro-bomba”, porém, deve ser entendida como uma classificação jornalística relacionada à expectativa em torno das revelações.

Como a obra ainda não foi publicada integralmente, não é possível avaliar todos os documentos, episódios e personagens que serão apresentados.

Reuniões teriam mudado com a eleição

Um dos trechos antecipados trata das reuniões de “análise de conjuntura” realizadas no Ministério da Defesa.

De acordo com a versão atribuída a Baptista Junior, esses encontros teriam se tornado mais frequentes e politicamente tensos com a aproximação das eleições de 2022.

O ex-comandante afirma que o general Laerte de Souza Santos, então chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, deixou de ser convocado para determinadas reuniões.

Laerte era responsável por uma estrutura que assessora o ministro da Defesa na coordenação de operações conjuntas e na integração entre Marinha, Exército e Aeronáutica.

Segundo os trechos divulgados, Baptista Junior questionou o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, sobre a ausência do oficial, mas não teria recebido uma explicação objetiva.

Posteriormente, Laerte teria sido informado de que seu afastamento decorria de uma solicitação dos comandantes das três Forças.

Baptista Junior nega ter feito esse pedido e afirma que o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, também rejeitou participação na suposta decisão.

Essa reconstrução pertence ao relato do autor e deverá ser confrontada com documentos, agendas, depoimentos e as versões dos demais envolvidos.

Brigadeiro já depôs ao STF

O posicionamento de Baptista Junior contra uma ruptura institucional não aparece pela primeira vez com o anúncio do livro.

Em maio de 2025, ele prestou depoimento ao Supremo Tribunal Federal como testemunha na ação penal que julgou o chamado núcleo central da tentativa de golpe.

Durante a audiência, o ex-comandante afirmou ter participado de reuniões nas quais foram discutidas medidas destinadas a impedir a posse de Lula depois das eleições de 2022.

Baptista Junior relatou que se levantou e deixou uma reunião quando uma minuta de conteúdo golpista foi apresentada no Ministério da Defesa.

Ele também declarou ter sofrido ataques por não aderir às propostas de ruptura e afirmou que as pressões buscavam fazer com que ele e Freire Gomes abandonassem suas posições legalistas.

Outro ponto de seu depoimento foi a afirmação de que Freire Gomes teria advertido Bolsonaro sobre a possibilidade de prisão caso o então presidente tentasse executar um golpe de Estado.

Julgamento já resultou em condenações

O contexto atual é diferente daquele existente quando as primeiras investigações começaram.

Em setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou os oito integrantes do núcleo principal da ação penal sobre a tentativa de golpe, incluindo Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira, Almir Garnier, Braga Netto, Augusto Heleno e Anderson Torres.

Paulo Sérgio Nogueira, citado no episódio envolvendo a exclusão de Laerte Santos, foi condenado a 19 anos de prisão em regime inicial fechado.

O STF determinou posteriormente o início do cumprimento da pena do ex-ministro da Defesa e dos demais condenados após a análise dos recursos apresentados.

Baptista Junior não integrou o grupo de réus.

Ele foi ouvido como testemunha e suas declarações foram consideradas no processo ao lado de depoimentos, mensagens, documentos e outros elementos apresentados durante a ação penal.

O lançamento do livro ocorrerá, portanto, depois de o STF reconhecer judicialmente a existência da tentativa de golpe e condenar integrantes do núcleo considerado central.

Livro poderá expor divergências militares

A obra também poderá ajudar a compreender as diferenças existentes dentro das próprias Forças Armadas durante o fim do governo Bolsonaro.

Os comandantes não apresentaram posições idênticas diante das propostas discutidas depois das eleições.

Os relatos de Baptista Junior e Freire Gomes indicaram resistência às medidas de ruptura, embora tenham surgido divergências entre suas lembranças sobre determinadas reuniões e frases pronunciadas durante aquele período.

Já o ex-comandante da Marinha Almir Garnier foi incluído entre os réus condenados pelo STF e recebeu pena de 24 anos de prisão.

Essas diferenças mostram que expressões genéricas como “os militares apoiaram” ou “as Forças Armadas impediram” podem esconder posições individuais, disputas internas e decisões distintas entre comandos e oficiais.


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Com informações da Revista Sociedade Militar.


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