ATENÇÃO! COMPRAS MILITARES SOB SIGILO: ‘DOCUMENNTO DO SENADO EXPÕE RISCO BILIONÁRIO NAS FORÇAS ARMADAS’; CONFIRA
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| (crédito: foto reprodução Sociedade Militar) |
Por: Alvaro Neves.
Postagem publicada às 15h20 desta quinta-feira, 28 de maio de 2026.
Entenda como o sigilo exagerado na compra de blindados e
caças esconde falhas graves e deixa o governo preso a contratos bilionários
desvantajosos.
Um documento de trâmite interno do Senado expôs uma zona
sensível das Forças Armadas: compras bilionárias de defesa protegidas por
sigilo, baixa fiscalização e risco de dependência de fornecedores externos. O
alerta atinge blindados, caças, submarinos e contratos estratégicos pagos com
dinheiro público.
Quando o assunto é a aquisição de equipamentos militares de
última geração, a cortina do “sigilo de Estado” costuma se fechar rapidamente.
A justificativa padrão é a proteção da segurança nacional, das inovações e do
território.
Entretanto, o aprofundado documento técnico “Contratações em
Defesa e Interesse Nacional no Brasil”, da Consultoria Legislativa do Senado,
lança uma luz incômoda sobre os bastidores dessa área.
Para o cidadão que acompanha geopolítica, seja com um olhar
mais à direita ou à esquerda, o alerta é claro: o patriotismo não pode ser um
escudo para a má gestão. O estudo desvenda o que os autores classificam como
“opacidade institucional”. A dependência quase exclusiva das cúpulas militares
para decisões técnicas de alto valor pode se tornar temerária quando não há
controle externo rigoroso, criando uma barreira que restringe o debate público
e pode esconder incompetência, má gestão e desvios sob o manto da
confidencialidade.
A concentração de poder nas mãos dos oficiais generais
No Brasil, a governança democrática da defesa nacional sofre
de um grave descompasso estrutural. Embora a Constituição Federal dê ao
Congresso Nacional a função primária de fiscalizar e aprovar orçamentos, o
poder real fica extremamente concentrado nas mãos do Presidente da República e
do Comando das Forças Armadas.
Essa hipertrofia do Poder Executivo permite que decisões
altamente sensíveis, como compras bilionárias de armamentos, ocorram quase sem
debate legislativo substancial. O Parlamento acaba atuando de maneira apática e
meramente reativa, limitando-se muitas vezes a chancelar propostas já
consolidadas pelos militares.
O motivo histórico para essa grave omissão reside em uma
máxima da política sul-americana: “defesa não dá voto”. Temas militares e
geopolíticos competem em desvantagem com áreas de maior visibilidade eleitoral,
como saúde, emprego e educação. Isso afasta os parlamentares do debate técnico
e aprofunda o monopólio das decisões nas mãos das corporações militares.
“há um descompasso estrutural entre competência formal e
poder real na área de Defesa Nacional. Isso porque, embora a Constituição
Federal atribua ao Congresso funções relevantes (legislar, fiscalizar, aprovar
orçamento, autorizar guerra, inter alia), a direção efetiva da política de
defesa, inclusive decisões sensíveis como aquisição de armamentos e emprego
interno das Forças Armadas, permanece concentrada no Presidente da República,
comandante supremo dessas Forças. O resultado é uma zona de decisão opaca…“,
diz o texto.
A armadilha dos contratos: quando o governo vira refém da
indústria
Um dos alertas mais sérios do documento do Senado é o risco
de o governo ficar “preso” aos fabricantes de armas. Isso acontece porque a
tecnologia militar é apresentada de forma tão complexa que apenas os militares
e as próprias empresas são vistos como capazes de entender todos os detalhes
técnicos.
Os próprios parlamentares têm um histórico de apenas endossar
as solicitações das cúpulas das Forças Armadas, aparentemente não se sentem
capacitados o suficiente para discutir detalhes técnicos.
Essa situação é muito comum na compra de equipamentos
gigantescos, como submarinos, aviões de caça ou veículos blindados. Como esses
projetos duram décadas e custam bilhões, o Brasil acaba criando uma dependência
extrema da empresa que vendeu o produto. Na prática, fica tão caro e difícil
trocar de fabricante no meio do caminho que o Estado vira refém do contrato.
É o que os especialistas e o estudo chamam de efeito
“lock-in”. Uma vez iniciado o projeto, trocar de fornecedor torna-se
economicamente dispendioso e operacionalmente quase impossível. O Estado acaba
refém daquele contrato e de seus aditivos, mesmo diante de ineficiências,
falhas ou atrasos expressivos na entrega.
Ideologia ou estratégia? O falso interesse nacional
A pesquisa demonstra que o conceito de “interesse nacional”
nas compras militares costuma ser uma cláusula aberta, frequentemente usada
para legitimar decisões discricionárias sem embasamento sólido. O caso recente
da suspensão da compra de obuseiros autopropulsados da israelense Elbit
Systems, por pressões políticas ligadas ao conflito em Gaza, ilustra
perfeitamente essa grave distorção.
O estudo aponta a imensa contradição do veto governamental:
se a regra é não comprar de países em conflito, o Brasil deveria banir a
Turquia, a Rússia e a China. Ironicamente, os dados aduaneiros cruzados no
relatório mostram que a Turquia se tornou a maior fornecedora recente de
munições ao país, mesmo sendo notória apoiadora do Hamas.
A seletividade na aplicação do “interesse nacional” revela um
filtro ideológico disfarçado de diplomacia. Essa quebra arbitrária da segurança
jurídica nas licitações gera o perigoso “apagão das canetas”, inibindo gestores
públicos e até militares de assinarem contratos cruciais por medo de desagradar
o líder político no escalão superior.
Diários da Caserna: A realidade que a ficção escancara
A teoria acadêmica e jurídica levantada pelo Senado ganha
contornos dramáticos e humanos na literatura recente. O livro “Diários da
Caserna – Dossiê Smart: A história que o exército quer riscar”, escrito pelo
coronel da reserva Rubens Pierrotti Jr., que acabou lhe rendendo um processo na
Justiça Militar da União, funciona como um estudo de caso perfeito para essas
profundas vulnerabilidades institucionais.
Escrito em formato de romance estruturado sobre fatos reais,
a obra narra os meandros de um escândalo na compra de um simulador militar de
artilharia (o projeto SMART) de uma empresa europeia. A trama mostra exatamente
o que acontece na zona de sombra e na opacidade tão fortemente criticadas pelo
documento técnico do Senado.
Coronel da reserva virou réu por críticas ao Exército em
livro. Entenda os limites da liberdade de expressão militar e os limites da Lei
7.524/86.
Coronel Pierrotti e seu livro “Dossiê Smart”. Imagem de
divulgação
Na história, o equipamento chega a ser reprovado diversas
vezes pelo corpo técnico, mas a compra milionária é “destravada” por pressão
direta de generais e oficiais de alta patente. Sem um Congresso fiscalizador
atuante, o protagonista se vê engolido por um sistema de punições internas ao
tentar denunciar as falhas, provando que o carimbo de “projeto estratégico”
muitas vezes encobre inépcias e corrupção.
O que o Brasil precisa aprender com França e Alemanha?
O abismo governamental entre o Brasil e democracias avançadas
fica ainda mais evidente nas boas práticas europeias apontadas pelo estudo. Na
Alemanha, qualquer projeto de aquisição militar acima de 25 milhões de euros
exige submissão e autorização prévia e direta do
Parlamento, garantindo controle democrático antes do gasto
financeiro.
A França, por sua vez, obriga o governo por lei a enviar
relatórios anuais extremamente detalhados ao Parlamento sobre programas de
armamento, explicando de forma clara a lógica estratégica de cada parceiro. No
Brasil, nosso Tribunal de Contas atua, na imensa maioria das vezes, de forma
posterior, tentando remediar os danos quando os contratos milionários já estão
em pleno vigor e até já deram prejuízo.
Uma reportagem publicada pela Revista Sociedade Militar em
dezembro de 2024 mencionou a advertência do TCU à Marinha por conta do programa
das Fragatas Tamandaré, que aos poucos aumentou a estimativa de gastos de forma
exorbitante, de 350 milhões de dólares em 2012 para 588 milhões de dólares em
2019.
“Primeiro, que estimativa inicial para o Programa Classe
Tamandaré, em 2012, indicava um custo de obtenção de US$ 350 milhões por
unidade (navio). Em 2017, esse custo foi atualizado para US$ 450 milhões por
unidade. Com o aprimoramento do projeto básico, ainda em 2017 a estimativa
alcançou o valor de US$ 663 milhões. Por conta das negociações e da
contratação, em 2019, o custo unitário de aquisição cada navio perfez o
montante de US$ 588 milhões“.
A área de defesa exige níveis inevitáveis de sigilo
estratégico, mas o documento do Senado é categórico: o sigilo não pode ser uma
blindagem confortável contra a prestação de contas. A solução proposta é a
criação imediata de “Indicadores de Transparência” específicos, que rastreiem o
desempenho dos contratos sem vazar segredos críticos.
Segurança nacional exige prestação de contas
O diagnóstico institucional do Senado Federal é incômodo para
as autoridades, porém urgente para a nação. As compras governamentais de defesa
são políticas públicas gigantescas financiadas com recursos do contribuinte e
devem total obediência aos rígidos princípios da legalidade e da máxima
eficiência.
Democratizar o debate público sobre o tema da defesa nacional
não enfraquece em nada as Forças Armadas. Pelo contrário, garante maior
sustentabilidade orçamentária a longo prazo, impede que a ideologia sabote
equipamentos vitais para as tropas e protege o país de gestões ineficientes. A
verdadeira autonomia estratégica se constrói com tecnologia real e
transparência inegociável.
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Com informações Revista Sociedade Militar.
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